terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Terceira geração do Modernismo

 Terceira geração Modernista

 Após o Estado Novo (1937 - 1945), caracterizado pela ditadura Vargas, o país passou por um processo de redemocratização através de uma política populista. De um lado esta política acentuou a intervenção do Estado na economia e, de outro, permitiu a introdução das multinacionais, inserindo definitivamente o Brasil no contexto do capitalismo internacional.
 Do ponto de vista literário, houve um retrocesso em relação às conquistas de 1922, uma volta ao passado com a revalorização da rima, da métrica, do vocabulário erudito e das referências mitológicas.
 A geração de 45 é, então, "passadista", acadêmica, inexpressiva em termos de grande autores, grande obras, mesmo abordando temas contemporâneos.
 Podem ser apontadas algumas características pela prosa brasileira neste período: Abordagem penetrante dos problemas gerados pela tensão existente entre os indivíduos e o contexto social em que vivem. Essa característica está presente nos romances de Osman Lins, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Autran Dourado, Luiz Vilela, Raduan Nassar entre outros.
 2° Abordagem realizada de forma direta, numa linguagem objetiva e forte, conduzindo o leitor à reflexão das misérias do quotidiano e aos mecanismos de opressão do mundo contemporâneo. É o que ocorre em diferentes níveis, nas obras de Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, João Antônio, Antônio Callado, Ignácio de Loyola Brandão, Márcio de Souza e outros.
  Outro caminho trilhado é o chamado realismo fantástico, que expressa uma visão crítica das relações humanas e sociais por meio de narrativas que transfiguram a realidade, fazendo coexistir o lógico e o ilógico, o fantástico e o verossímil. Destacam-se, nessa linha, as obras de Murilo Rubião e José J. Veiga.
  Deve-se fazer referência ao regionalismo, tendência que desde o Romantismo constitui fonte preciosa para a literatura brasileira. A intenção de representar a realidade do interior do país, com seus tipos humanos e problemas sociais, é comum a Herberto Sales, Mário Palmério, Adonias Filho e outros.

 A Literatura como pesquisa de linguagem

 É a consciência que existe harmonia entre o pensar e o sentir, o sentir e o imaginar, a atividade literária é um exercício, uma ininterrupta pesquisa de linguagem.
 Na terceira fase do Modernismo devemos dar destaque a três autores "isolados", isto porque neles estão marcadas as diferenças que os distinguem, há percepção da literatura como linguagem, inclusive pelas pesquisas que buscam os limites da linguagem literária: A precisão da poesia de João Cabral de Melo Neto (o engenheiro da palavra), a sutileza entre a fala e o texto narrativo mitopoético de Guimarães Rosa e a busca através da palavra, o "movimento puro", dos movimentos em busca da palavra, dos trabalhos literários de Clarice Lispector.


 Guimarães Rosa


 João Guimarães Rosa - Pelas inovações operadas na linguagem literária, Guimarães Rosa impôs-se como um verdadeiro marco na evolução de nossa literatura. Na elaboração de seu estilo, ele utilizou-se de vários processos: exploração de palavras; aproveitamento do linguajar regionalista cheio de arcaísmos (palavras antigas), adaptação de termos e expressões extraídos de várias línguas modernas, além de recorrer ao grego e latim. Mas seu valor não estava apenas na experimentação formal, a riqueza da sua linguagem expressava também uma profunda visão da existência humana; Guimarães Rosa conseguiu superar o que era simplesmente regional e atingiu o universal, através da profunda percepção dos problemas vitais que existem no interior do homem de qualquer região. Sua obra aborda temas que envolvem indagações sobre o destino, significado da vida e da morte, existência ou não de Deus. Extraindo do regional matéria para elaboração de uma obra que questiona o próprio sentido da vida, Guimarães Rosa revigorou a literatura regionalista brasileira.
 Principais obras -  Grande Sertão: Veredas; Livros de contos: Primeiras estórias; Tutaméia; Estas estórias; Noites do sertão; contos e textos avulsos reunidos em Ave, a palavra.

 Enredo de Grande Sertão: Veredas

 Este romance é a grande obra de Guimarães Rosa. Num longo monólogo que vai do começo ao fim do livro,  Riobaldo, ex-jagunço e chefe de bando, transformado no presente em pacato fazendeiro, conta a um suposto interlocutor suas aventuras da juventude, as pelejas de que participou, seus temores e dúvidas a respeito da existência de Deus e do diabo.
 Ao querer vingar a morte de Joca Ramiro, chefe dos jagunços, assassinado à traição por Hermógenes, ex-companheiro de bando, Riobaldo procura fazer um pacto com o demônio para tornar-se capaz de destruir o traidor. Torna-se líder do bando que busca vingança e, depois de muitas peripécias, em que o comportamento de Riobaldo parece revelar poderes estranhos, os dois grupos se encontram. Diadorim, seu melhor amigo e por quem ele sentia uma estranha atração afetiva que tanto o perturbava, luta com Hermógenes e vence-o, mas vem a morrer também no combate. Então ele descobre que Diadorim era mulher, filha de Joca Ramiro disfarçada em homem. Riobaldo, amargurado, atormentado pela dúvida da existência do demônio e da possibilidade de se fazer pacto com ele, abandona a vida de jagunço e vai viver como um pacato fazendeiro.
 As indagações religiosas e metafísicas de Riobaldo a respeito de Deus, do pecado, do sentido da vida estão presentes em toda a narrativa, que constitui uma verdadeira aventura no interior do ser humano em busca das respostas para o mistério de sua condição.


 Clarice Lispector

 O que é percebido em Clarice Lispector é uma inquietante tentativa em explorar as camadas mais profundas da consciência humana em busca do significado da existência. O seu aprofundamento na análise psicológica realiza-se através de uma linguagem aparentemente simples, mas que revela uma constante preocupação em tentar captar a verdade que se esconde atrás das simples aparências das palavras. Como Guimarães Rosa, Clarice Lispector "recriou" a linguagem, propôs uma visão temática e expressional, polêmica na época mas inovadora para a ficção do Brasil, ou seja, o gênero romance deixa seu modelo tradicional, em que estão o Brasil regional e o realismo cru, para ganhar nova dimensão e outra finalidade, como a de registrar a problematização estética da linguagem, discutindo assim, os próprios limites do gênero.
 Principais obras: Romances - Perto do coração selvagem; O lustre; A cidade sitiada; A hora da estrela; A paixão segundo G.H. Água viva; contos - Alguns contos; Laços de família; Imitação da rosa; além de crônicas, poesias e livros infantis.

 A paixão segundo G.H. - É um livro em que a narração é a base do romance. Ao invés de ação, o livro apresenta uma situação: uma mulher de classe média, seis meses depois da demissão da empregada, resolve ir ao seu quarto que ficara abandonado. Do armário sai então, uma barata, e a partir de tal situação vai se desenvolvendo na personagem um processo de autodescoberta, de desvendamento da mediocridade em que vive, que culmina com a identificação entre ela e a barata.
 Ao mesmo tempo em que lhe causa medo, a barata lhe desperta o sentimento de coragem; ao mesmo tempo que se enjoa, se indigna, a personagem sente em profundidade alegria: "como se enfim eu experimentasse, e em mim mesma, uma grandeza maior do que eu. E me embriagava pela primeira vez de um ódio tão límpido como de uma fonte,  que eu me embriagava com o desejo, justificado ou não, de matar."
 Matar ou não a barata, mas a insensibilidade de um cotidiano que a transforma em barata... toma então, a barata como hóstia, para superar a solidão e a várzea, para se reconciliar com a matéria do mundo, e assim assimilar, em êxtase, o nojo que tem de si mesma.
 Sentindo uma grandeza, uma alegria, um prazer misturado com o medo, a náusea, o nojo, mostram a base sensorial, intuitiva, feminina da ficção introspectiva de Clarice Lispector.

 João Cabral de Melo Neto

 João Cabral de Melo Neto foi um poeta que distinguiu pela elaboração de uma linguagem própria, seca, objetiva, e trilhou se caminho de uma forma bem pessoal.
 A preocupação com a construção da poesia, encarada como fruto do trabalho paciente e lúcido do poeta, ele abordou em suas poesias elementos concretos da realidade, sempre guiados pela lógica e pelo raciocínio. Seus poemas não abordam a análise e exposição do "eu" (poética "antilírica") e voltam para o universo dos objetos, fatos sociais e paisagens. Podemos observar também o rigor estético, rimas toantes e surrealismo em suas obras, João Cabral de Melo Neto inaugurou uma forma diferente de fazer poesia no Brasil.
 Principais obras: Pedra do sono; O engenheiro; O cão sem plumas; Morte e vida Severina; Uma faca só lâmina; A educação pela pedra; poesia crítica.

 Morte e vida Severina (auto de Natal Pernambucano)

 Sua linha narrativa segue dois movimentos que aparecem no título: "morte e vida". No primeiro, há a trajetória de Severino, personagem-protagonista, parte para Recife, em face da opressão econômico-social. Severino tem a força coletiva de uma personagem típica: representa o retirante nordestino. No segundo movimento, o da "vida", o autor não coloca a euforia da ressurreição da vida dos autos tradicionais, ao contrário, o otimismo que ocorre é de confiança no homem. Morte e vida Severina é uma reflexão e ao mesmo tempo um depoimento sobre certos problemas sociais do nordeste brasileiro.




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