sábado, 26 de março de 2011

Fábula


Fábula




 Fábula - É a narração em que, geralmente, as personagens são animais, e que tem por objetivo demonstrar um ensinamento, tal ensinamento é a moral ou moralidade da história.
  • Apresenta virtudes e defeitos dos seres humanos através de animais, por meio deles, os autores de fábulas fazem críticas e instruem divertindo.
  • Fusão: lúdico e pedagógico.
  • Instrumento de formação de caráter.
  • Forma fácil de passar  conceitos.
  • Gênero narrativo em que prende a atenção, pelo fato de ser curto e muito eficiente no entretenimento.
  • Inverossímil (inacreditável, improvável).
  • Abordagens: bondade x astucia, bem x mal, fraqueza x força, querer x poder etc.
  • Versatilidade: temas variados - emoção, humor, sátira, ironia etc.

Contos de fábulas

 O ratinho, o galo e o rato

 Certa manhã, um ratinho saiu do buraco pela primeira vez. Queria conhecer o mundo e travar relações com tanta coisa bonita de que falavam seus amigos.
 Admirou a luz do sol, o verdor das árvores, a correnteza dos ribeirões, a habitatação dos homens. E acabou penetrando no quintal duma casa da roça.
 -Sim senhor! é interessante isto!
 Examinou tudo minuciosamente, farejou a tulha de milho e a estrebaria. Em seguida notou no terreiro um certo animal de belo pelo que dormia sossegado ao sol.
 Aproximou-se dele e farejou-o sem receio nenhum.
 Nisto aparece um galo, que bate as asas e canta.
 O ratinho por um triz  que não morreu de susto. Arrepiou-se todo e disparou como um raio para a toca. Lá contou à mamãe as aventuras do passeio.
 - Observei muita coisa interessante - disse ele - mas nada me impressionou tanto como dois animais que vi no terreiro. Um, de pelo macio e ar bondoso, seduziu-me logo. Devia ser um desses bons amigos da nossa gente, e lamentei que estivesse a dormir, impedindo-me assim de cumprimentá-lo. O outro...Ai, que ainda me bate o coração! O outro era um bicho feroz, de penas amarelas, bico pontudo, crista vermelha e aspecto ameaçador. Bateu as asas barulhentamente, abriu o bico e soltou um có-ri-có-có tamanho que quase caí de costas. Fugi. Fugi com quantas pernas tinha, percebendo que devia ser o famoso gato que tamanha destruição faz no nosso povo.
 A mãe-rata assustou-se e disse:
 - Como te enganas, meu filho! o bicho de pelo macio e ar bondoso é que é o terrível gato. O outro, barulhento e espaventado, de olhar feroz e crista rubra, o outro, filhinho, é o galo, uma ave que nunca nos fez mal nenhum. As aparências enganam.
 Aproveita, pois a lição e fica sabendo que "Quem vê cara não vê coração".

      ( Lobato, Monteiro, Fábulas. In: Obras completas. Brasiliense, 1970 v4 p.35/36)



 O burro juiz


 Disputava a gralha com o sabiá, afirmando que a sua voz valia a dele. Como as outras aves rissem daquela pretensão, a bulhenta matraca de penas, furiosa, disse: Nada de brincadeiras. Isto é uma questão muito séria, que deve ser decidida por um juiz. Canta o sabiá, canto eu, e a sentença do julgador decidirá quem é o melhor artista. Topam?
 -Topamos! Piaram as aves. Mas quem servirá de juiz? 
 Estavam a debater este ponto, quando zurrou um burro. -Nem de encomenda! exclamou a gralha. Está lá um juiz de primeiríssima para julgamento de música, pois nenhum animal possui maiores orelhas. Convidêmo-lo. Aceitou o burro o juizado e veio postar-se no centro da roda.
 -Vamos lá!, comecem! ordenou ele.
 O sabiá deu um pulinho, abriu o bico e cantou. Cantou como só cantam os sabiás, garganteando os trinos mais melodiosos e límpidos. Uma pura maravilha, que deixou mergulhado em êxtase o auditório em peso.
 -Agora eu! disse a gralha, dando um passo à frente. E abrindo a bicanca matraqueou uma grita de romper os ouvidos aos próprios surdos. Terminada a justa, o meretíssimo juiz deu a sentença:
 -Dou ganho de causa à excelentíssima senhora dona gralha, porque canta muito mais forte que mestre sabiá.

 Moral da história: "Quem burro nasce, togado ou não, burro morre".

                                                                 (Monteiro Lobato. Livro Fábulas, 1922)



                                                        




quinta-feira, 24 de março de 2011

Conto

 Conto - O conto é definido como uma narrativa em prosa, de pequena extensão. Não podemos reconhecer um conto a partir do número de páginas em que se enquadra numa história. Por ser um tipo de narrativa voltada para objetivos bem determinados, a sua forma acompanhará o conjunto dos elementos específicos a esse tipo de narrativa. A chave para o entendimento do conto como gênero está na concentração de sua trama. O conto geralmente trata de uma determinada situação e não de várias, e acompanha sem pausas, pois seu objetivo é levar o leitor ao desfecho, que coincide com o clímax da história, com o máximo de tensão e o mínimo de descrições. Essa forma narrativa possui as suas próprias leis internas, que a singularizam diante das outras formas narrativas. O tempo e o espaço geralmente são reduzidos ao mínimo indispensável para elaboração da trama, assim como são poucos os protagonistas.
 Para se estabelecerem os princípios gerais que regem o conto, é necessário considerá-lo em relação com o seu meio, com a situação na qual é criado e na qual ele vive.
 O conto é um gênero narrativo extremamente vigoroso e oferece várias possibilidades de expansão. Podemos considerar uma forma promissora, é um tipo de leitura mais rápida, concentra em poucas páginas toda a riqueza da arte literária narrativa.

 Enredo do conto "A Cartomante" Machado de Assis

 Tema: Triângulo amoroso. Os amigos de infância Camilo e Vilela reencontram-se depois de muitos anos de distância, Vilela casou-se com Rita que mais tarde foi apresentada ao Camilo.
 Rita, mulher ingênua, havia consultado uma cartomante, achando que seu amante, Camilo deixara de amá-la, já que não visitava mais sua casa. Mas na realidade foi um mal-entendido, fez-se um flashback que explica como começou tal relação. A amizade entre os dois amigos estreita a intimidade entre Camilo e Rita, principalmente depois da morte da mãe dele. Quando sente atração pela mulher do amigo tenta evitar, mas deixa ser seduzido. Até que um dia recebe uma carta anônima, que deixava evidente a relação dele com a mulher do amigo. Temeroso, resolve evitar frequentar a casa de Vilela, deixando Rita preocupada.
 A cartomante: A situação leva Rita a consultar uma cartomante, que prevê alegrias e bem-aventuranças. A cartomante está caracterizada como uma charlatã, ludibriando as pessoas que vão consultá-la, Rita crê que a cartomante vai resolver todos os seus problemas e angústias, Camilo, quando está prestes a ser desmascarado, num momento de desespero, recorre a mesma cartomante, que por sua vez o ilude. A mulher usa de metáforas e frases de efeito, parecendo uma mulher sábia. Antes de ir ao consultório, Camilo recebeu um bilhete do amigo Vilela com a mensagem: "vem já, já" mas o receio que ele tinha de ir à casa do amigo acabou pois a cartomante havia dito para Camilo que o futuro dele seria de felicidade no relacionamento com Rita, e foi para a casa de Vilela confiante. Assim que foi recebido, pôde ver pela porta, que lhe foi aberta, o rosto desfigurado de raiva de Vilela e o corpo de Rita sobre o sofá. Foi morto pelo amigo de infância, que já sabendo da traição da esposa já estava o esperando com a arma em punho.
A cartomante
  •  Foco narrativo: 3° pesssoa, presença onisciente do autor (conhece todos os aspectos da história e suas personagens), este recurso dinamiza o conto, acentua os momentos dramáticos do conto e fortalece o seu epílogo.
  • Estilo "Machadiano": Crítica humorada e irônica das situações humanas, das relações das personagens e seus padrões de comportamento. Análise profunda da psicologia humana (personagens imprevisíveis, contradições humanas, o conflito em ingenuidade x malícia e sinceridade x hipocrisia). 
  • Visão pessimista da vida, onde não existe final feliz.
  • Metalinguagem: A história tem muitas conversas, o narrador dinamiza o conto e transforma o leitor em participante do enredo.
  • 4 personagens principais: Vilela, Camilo, Rita e a cartomante, a morte da mãe de Camilo(personagem secundária) foi importante no enredo da história.
Machado de Assis





segunda-feira, 7 de março de 2011

Literatura infantil

 Literatura infantil -  A literatura infantil é composta por ilustração e texto. O formato dos livros varia muito, ao contrário da literatura para adultos. Elemento muito importante: é a diagramação (forma, cor, textura, dimensão do texto), um livro bem diagramado na literatura infantil é muito importante porque as ilustrações do livro chamam a atenção das crianças e têm um grande valor estético. Na literatura para crianças o grande desafio para o autor infantil é produzir um texto que seja tão imaginário que, com a ajuda das ilustrações o texto tem que ser interessante, abordando o universo infantil.
 Na literatura infantil há necessidade da convivência de duas vertentes  : a ilustração e o literário. Conforme a criança cresce ou amadurece haverá menos necessidade da ilustração no livro, mas um completa o outro. A natureza da literatura infantil é um caminho que leva a criança a desenvolver a imaginação, emoções e sentimentos de forma significativa.

 Principais características da literatura infantil: 

  • Livros muito ilustrados
  • Discurso direto
  • Narrativa com muita ação
  • Final feliz
  • Linguagem simples
  • Clareza 
  • Livros com poucas páginas
  • Personagens principais: crianças, animais, heróis
  • A importância do maravilhoso
 Principais autores da literatura infantil no Brasil:

 Monteiro Lobato  - Participou ativamente da vida cultural brasileira, e, ao morrer, deixou uma extensa obra, composta de contos, ensaios, romances e uma série de livros infantis que o tornaram muito popular. Seus livros tinham como objetivo ensinar a criança a ter raciocínio próprio e visão crítica do mundo. Em seus livros, Monteiro Lobato contou fatos mitológicos, políticos, sociais, históricos e científicos. Ensinou matemática, português, geografia e astronomia, de um modo claro e objetivo.
 As contestações de Monteiro Lobato estão escondidas na literatura infantil; Emília, uma boneca de pano - diz sempre a verdade porque nunca viveu em sociedade e não sabe mentir. Visconde de Sabugosa - um grande sábio, "vive" dentro de uma biblioteca, desligado da vida, mas sabe da existência do petróleo no Brasil. Pedrinho e Narizinho, têm uma infância normal e livre.
 Declaração de Monteiro Lobato: "De escrever para marmanjos, já enjoei. Bichos sem graça. Mas, para crianças, um livro é todo um mundo. Ainda acabo fazendo livros onde nossas crianças possam morar, como morei no 'Robinson' e nos 'filhos do Capitão Grant".
 Principais obras infantis: A menina do narizinho arrebitado; O Saci; O noivado de Narizinho; Reinações de Narizinho; Viagem ao céu; Caçadas de Pedrinho; Emília no país da gramática; Geografia de dona Benta; Histórias de tia Nastácia; O picapau amarelo.
Monteiro Lobato




 Orígenes Lessa - Orígenes Lessa foi contista, jornalista, romancista, ensaísta e imortal da Academia Brasileira de Letras. Orígenes Lessa, escreveu vários gêneros literários, e obteve consagração como escritor de literatura infantil e infanto-juvenil,tendo-se iniciado nesta vertente quando solicitado para palestrar sobre "O feijão e o sonho" em uma escola , Orígenes espantou-se pois este romance é uma leitura para adultos e as crianças gostavam muito de ler. Em menos de 15 dias Orígenes Lessa escreveu "Memórias de um cabo de vassoura", editado em 1971, e devido ao grande sucesso com o público infantil, não parou mais de escrever para crianças.
 Na literatura infantil e infanto-juvenil, Orígenes Lessa manteve sua característica principal: relação entre autor, obra e leitor. Ele dizia que "escrever para crianças é muito gostoso se a gente acerta o gosto delas, mas é uma barra muito pesada, pois seremos os culpados ou não pela receptividade da leitura pelos adolescentes."
 Principais obras para crianças e adolescentes: O sonho de Prequeté, Memórias de um cabo de vassoura; Sequestro em Parada de Lucas; Memórias de um fusca; Napoleão ataca outra vez; A escada de nuvens; Confissões de um vira-lata; A floresta azul; O mundo é assim, Taubaté; É conversando que as coisas se entendem.
Orígenes Lessa




 Comparações das obras de Monteiro Lobato e Orígenes Lessa:

  • Comicidade e humor (elementos que prendem a atenção das crianças)
  • Certo olhar crítico diante da vida
  • Suas obras infantis e infanto - juvenis também são muito apreciadas por adultos
  • Alto nível de comunicação com o público infantil
  • Tanto Lobato quanto Lessa, eram exímios contadores de histórias

 Maurício de Sousa - É um dos mais famosos cartunistas do Brasil, Maurício de Sousa começou a desenhar histórias em quadrinhos em 1959, quando uma história do Bidu, sua primeira personagem foi aprovada pelo jornal. As tiras em quadrinhos com um cãozinho Bidu e seu dono, Franginha, deram origem aos primeiros personagens conhecidos da era Turma da Mônica. O quadrinhos de Maurício de Sousa têm fama internacinal, e foram adaptados para o cinema, televisão e vídeo-games; além de terem sido licenciados para o comércio em uma série de produtos com a marca das personagens. Qualquer criança que tenha acesso às revistinhas criadas por Maurício de Sousa, encantam-se com suas histórias que misturam ficção com realidade.
 Principais obras: Turma da Mônica; Turma do Chico Bento; Turma do Bidu; Turma da Tina; Turma do Penadinho; Horácio; Cebolinha; Cascão; Magali; Turma do Pelezinho.
Maurício de Sousa

 Ziraldo - É um cartunista, chargista, pintor, traumaturgo, escritor, cronista, desenhista e jornalista. A obra de Ziraldo mescla palavras e imagens de forma harmônica e convida o leitor à reflexão sobre a realidade. Por vezes, o olhar é conduzido para simples partes do corpo como o umbigo Rolim e o joelho Juvenal que se tornaram personagens principais de estórias. A proposta principal é uma parte do corpo, por menor que seja, pode sozinha não parecer tão importante, mas no conjunto do funcionamento ela se torna fundamental. Manifesta-se nessa perspectiva o posicionamento político e demográfico que marca a obra deste grande escritor.
 Principais obras infantis: A bola quiquica; A bonequinha de pano; A casinha pequenina; A fábula das três cores; A turma do Pererê; Flicts; O Menino Maluquinho; O joelho Juvenal; O mundo é uma bola; Rolim.
Ziraldo

 Maria Clara Machado - Escritora e dramaturga, autora de famosas peças infantis. Fundadora do Tablado, escola de teatro no Rio de Janeiro. Seu maior sucesso do Tablado e o texto mais bem montado foi Pluft, o Fantasminha. Esta peça conta com humor e poesia, é a obra mais completa de Maria Clara Machado.
 Outras obras de destaque: O rapto das cebolinhas; A Bruxinha que Era Boa; O Aprendiz de Feiticeiro; A Menina e o Vento; O Cavalinha Azul; Os Cigarras e os Formigas; O Embarque de Noé; Maria Minhoca; O Chapeuzinho Vermelho.
Maria Clara Machado



 Ana Maria Machado - Jornalista, professora, pintora e escritora, membro da Academia Brasileira de Letras, dos prêmios que já recebeu, o que merece maior destaque foi o Hans Christian Andersen, o mais importante prêmio de literatura infantil. Também foi uma das fundadoras da 1° livraria infantil no Brasil (Malasartes), mas vendeu sua parte, pois ela não conseguiu conciliar a carreira de escritora com a de comerciante. Como ela mesma declarou "Um escritor é um artista, tem que ser livre. Um livreiro é um comerciante, tem que dar sempre razão ao freguês".
 Obras de destaque no segmento infantil: Amigo é comigo; Bento que Bento é o frade; Raul da ferrugem azul; O canto da praça; O que É?; Abrindo caminho; Era uma vez três; O gato do mato e o cachorro do morro; O mistério da ilha; O domador de monstros.
Ana Maria Machado


 Cecília Meireles - Poetisa, pintora, professora e jornalista. Um dos maiores nomes da Literatura Brasileira e da 2° geração modernista. Formou-se professora primária, exercia o magistério ao mesmo tempo que colaborava com vários jornais e revistas cariocas. Sua formação como professora e o interesse pela educação levou-a a fundar a primeira biblioteca infantil que ficava localizada na enseada de Botafogo, Rio de Janeiro, lá Cecília Meireles desenvolveu sua criatividade e seu empenho em favor da literatura infantil. Quando existia uma dificuldade pedagógoca ou disciplinar, era comunicado a Cecília, que sempre resolvia e ordenava. Embora seja mais reconhecida como poetisa, também nos deixou contos, crônicas, literatura infantil e folclore, chegou a ser reconhecida internacionalmente como grande conhecedora do assunto.
 Obras principais infantis: O cavalinho branco; Colar de Carolina; Sonhos de menina; O menino azul. Poemas marcados pela musicalidade, pela influência simbolista de Cecília.
Cecília Meireles


 Clarice Lispector - Romancista, contista, cronista e jornalista. Um dos maiores nomes da 3° geração modernista e da Literatura do Brasil. A literatura infantil de Clarice Lispector é abordada com grande sensibilidade, envolvida num clima de aconchego e conforto, fazendo com que a cada página lida, as crianças se sentissem como que entrando na casa da própria autora. Clarice conseguiu criar um clima de "intimidade" próprio para ganhar confiança, ela "dialoga" com o leitor mirim. "Antes de começar, quero que vocês saibam que  meu nome é Clarice. E vocês, como se chamam? Digam baixinho o nome de vocês e meu coração vai ouvir". Esse recurso estilístico se repete muitas vezes, os supostos diálogos da narradora com o leitor predominam em relação às ações da própria narrativa. Clarice Lispector estava ciente de como penetrar no universo infantil de modo seguro; e consegue fazer com que o leitor mirim não se "sinta sozinho" ao ler a história.
 Principais obras infantis: Mistério do Coelho Pensante; A Vida Íntima de Laura; A Mulher que Matou os Peixes; Quase de Verdade.
Clarice Lispector


Link do meu canal no Youtube para complemento dos seus estudos:


https://www.youtube.com/watch?v=e9SnENlUhvk&spfreload=10







quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Literatura de cordel

 Literatura de cordel

 A literatura de cordel foi introduzida no Brasil pelos portugueses, século XVIII. É poesia popular impressa e divulgada em folhetos ilustrados em xilogravuras. Tem este nome porque em Portugal os folhetos eram expostos em cordões, chamados cordéis.
 A publicação gráfica de um folheto de cordel transparece de maneira plena, a sua oralidade. Ele pertence ao universo sem escrita dos cantadores, cujo acervo do saber é a memória, ritmar o universo.
 A literatura oral não se restringe à mera tarefa de substituir a produção literária impressa nos ouvidos e nas bocas dos que não costumam ler. A literatura oral é mais velha que a escrita. Uma cultura elitizada tende a classificar o cordel, as expressões e sabedoria do povo como uma literatura ingênua, pitoresca, folclórica.
 A literatura de cordel é obra popular transformada em arte. Junto com as migrações, o cordel foi introduzido nas metrópoles do Brasil, sua abordagem não é só regional, são constantes os temas atuais, urbanos, adivinhas, parlendas, estórias, travalínguas, romances e anedotas.
 Voz e ritmo que provêm de um ambiente socialmente pobre, o cordel é capaz de atingir a todas as camadas sociais, utilizando a imaginação e criatividade popular.

 Principais autores:


 Leandro Gomes de Barros: Foi o mais importante autor da literatura de cordel, ainda é o escritor mais lido entre os escritores populares. Publicou aproximadamente mil folhetos e tirou deles mais de dez mil edições, nascido no município de Pombal, Paraíba no ano de 1865 viveu exclusivamente de escrever seus versos populares. Fazia críticas sobre a política, história, religiosos. Denunciava os abusos dos coronéis. Principais obras:

  • O punhal e a palmatória
  • O cavalo que defecava dinheiro
  • O cachorro dos mortos
  • História do boi misterioso
  • A vida de Pedro Cem
  • Os sofrimentos de Alzira
  • História de João da Cruz
  • A mulher roubada
  • Suspiros de um sertanejo
  • A seca do Ceará
Leandro Gomes de Barros


 Trechos de suas obras:

 "Leitores peço desculpas
 Se a obra não for de agrado,
 Sou um poeta sem força
 O tempo tem me estragado,
 Escrevo há 18 anos
 Tenho razão de estar cansado"

                                               (A mulher roubada)

 "Nós temos cinco governos
 O primeiro o federal
 O segundo o do estado
 O terceiro o municipal
 O quarto a palmatória
 E o quinto o velho punhal"

                                               (O punhal e a palmatória)

 "Se vendo o compadre pobre
 Naquela vida privada
 Foi trabalhar nos engenhos
 Longe da sua morada
 Na volta trouxe um cavalo
 Que não servia pra nada

 Disse o pobre à mulher:
 -como havemos de passar?
 O cavalo é magro e velho
 Não pode mais trabalhar
 Vamos inventar um 'quengo'
 Pra ver se o querem comprar.

 Foi na venda e de lá trouxe
 Três moedas de cruzado
 Sem dizer nada a ninguém
 Para não ser censurado
 No fiofó do cavalo
 Foi o dinheiro guardado

 Do fiofó do cavalo
 Ele fez um mealheiro
 Saiu dizendo: -sou rico!
 Inda mais que um fazendeiro,
 Porque possuo o cavalo
 Que só defeca dinheiro..."

                                                (O cavalo que defecava dinheiro)

 João Martins de Athayde: Nasceu na Paraíba e criado em Pernambuco. Não frequentou a escola, aprendeu a ler e escrever sozinho, começou a admirar a poesia popular porque ouvia os cantadores da região, sua primeira rima foi composta aos 12 anos. Comprou os direitos autorais de Leandro Gomes de Barros e editou também os poemas deste grande cordelista. Principais obras:

  • A bela adormecida no bosque
  • A menina perdida
  • A moça que foi enterrada viva
  • A sorte de uma meretriz
  • História de Joãozinho e Mariquinha
  • História de José do Egito
  • O retirante
  • O segredo da princesa
  • Romeu e Julieta
  • Um passeio no escuro
João Martins de Athayde


 Cuíca de Santo Amaro: Baiano, gostava de retratar o quotidiano de sua terra natal, era um tipo de cronista e repórter, qualquer fato interessante, Cuíca não deixava "escapar". Gostava de fazer denúncias contra corruptos e poderosos de sua época e era grande amigo de Jorge Amado. Algumas obras:


  • O sururú na federação de desportos terrestres
  • O câmbio negro e as misérias na Bahia
  • O casamento de Orlando Dias com Cauby Peixoto
  • A grande explosão! no barracão de fogos
  • O carnaval da bandalheira
  • Políticos e demagogos e homens sem palavra
Cuíca de Santo Amaro


 Trecho de sua obra:

 "Era imenso o galinheiro
 Estava mesmo lotado
 Tudo de camisa verde
 Era um quadro gozado
 Porém só tinha um galo
 E era o Plínio Salgado

 Porém o galinheiro
 Muito tempo não durou
 Quando foi um belo dia
 Getúlio Vargas cismou
 Agarrou logo o galinheiro
 E o rabo logo cortou.

 Nunca disse a ninguém
 Que eu era Getulista
 Nem também afirmei
 Que eu era Queremista
 Todos sabem muito bem
 Que eu sou propagandista..."







                                                                       



                                                                                           


                                                     








quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tropicália

 Tropicália

 Tropicália ou tropicalismo foi um movimento musical, que influenciou outras áreas culturais como: artes plásticas, poesia, cinema.
 Em 12 de setembro de 1968, acompanhado pelo grupo Os Mutantes, Caetano Veloso estava tentando apresentar a canção É proibido proibir. Tomates e vaias, discordância na plateia, os artistas no palco de costas para a plateia e a plateia de costas para os artistas. A música, inscrita no 3° Festival Internacional da Canção, fora inspirada  pelos grafites que cobriram os muros de Paris na rebelião estudantil de maio de 1968. Ironicamente, a canção prenunciava o início da época em que, no Brasil se tornaria permitido proibir.
 Três meses depois daquela apresentação de Caetano com Os Mutantes no Teatro da Universidade Católica, em São Paulo, o general Costa e Silva decretou o AI-5, o ato que permitiria à censura submeter a cultura nacional a uma espécie de lavagem cerebral. Embora atingisse a literatura, o cinema, o teatro e a imprensa, a censura foi especialmente dura com a música. Desde o sucesso mundial da bossa nova, início dos anos 60, a música se tornou a manifestação cultural mais vibrante no Brasil. Com o advento da Jovem Guarda, por volta de 1965, a música entraria na era da cultura de massa e logo se associaria à televisão.
 As redes de televisão promoviam festivais como o FIC (Festival Internacional da Canção), neles explodia o choque entre a música de protesto, origem nacionalista e música pop, americanizada e rotulada como alienada.
 O que levou o público a vaiar Caetano naquela noite foi o confronto entre a juventude "engajada" e de esquerda e a vanguarda artística que Caetano Veloso e Gilberto Gil representavam. Há uma grande semelhança entre este acontecimento com a primeira noite da Semana de Arte Moderna em 1922, que não foi mera coincidência, quando se sabe que, pouco antes, os dois baianos tinham criado o movimento Tropicalista, releitura pop e hippie da Antropofagia de Mário e Oswald de Andrade. Baseados em tudo o que acontecia de novo e de jovem em um país fervilhante:

  • Cinema novo
  • Experimentalismos do Teatro de Arena e Teatro de Opinião
  • Ecos da bossa nova
  • Jovem Guarda
  • Cultura televisiva
  • Telenovelas
  • Pintura de Hélio Oiticica
  • Poesia concretista

 É proibido proibir   Caetano Veloso

 A mãe da virgem diz que não
 E o anúncio da televisão
 E estava escrito no portão
 E  maestro ergueu o dedo
 E além da porta
 Há o porteiro, sim...

 E eu digo não
 E eu digo não ao não
 Eu digo: É!
 Proibido proibir
 É proibido proibir
 É proibido proibir
 É proibido proibir...

 Me dê um beijo meu amor
 Eles estão nos esperando
 Os automóveis ardem em chamas
 Derrubar as prateleiras
 As estantes, as estátuas
 As vidraças, louças
 Livros, sim...

 E eu digo sim
 E eu digo não ao não
 E eu digo: É!
 Proibido proibir
 É proibido proibir
 É proibido proibir
 É proibido proibir
 É proibido proibir

 Me dê um beijo meu amor
 Eles estão nos esperando
 Os automóveis ardem em chamas
 Derrubar as preteleiras
 As estátuas, as estantes
 As vidraças, louças
 Livros, sim...

 E eu digo sim
 E eu digo não ao não
 E eu digo: É!
 Proibido proibir
 É proibido proibir
 É proibido proibir
 É proibido proibir
 É proibido proibir...












 Tropicália    Caetano Veloso


Sobre a cabeça os aviões

Sob os meus pés, os caminhões
Aponta contra os chapadões, meu nariz


Eu organizo o movimento

Eu oriento o carnaval

Eu inauguro o monumento

No planalto central do país


Viva a bossa, sa, sa


Viva a palhoça, ça, ça, ça, ça


O monumento é de papel crepom e prata

Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde atrás da verde mata
O luar do sertão

O monumento não tem porta
A entrada é uma rua antiga,
Estreita e torta
E no joelho uma criança sorridente, 
Feia e morta,
Estende a mão

Viva a mata, ta, ta

Viva a mulata, ta, ta, ta, ta

No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina

E faróis
Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E no jardim os urubus passeiam
A tarde inteira entre os girassóis

Viva Maria, ia, ia
Viva a Bahia, ia, ia, ia, ia

No pulso esquerdo o bang-bang
Em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração
Balança a um samba de tamborim

Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhoras e senhores
Ele pões os olhos grandes sobre mim

Viva Iracema, ma, ma
Viva Ipanema, ma, ma, ma, ma

Domingo é o fino-da-bossa
Segunda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça

Porém, o monumento
É bem moderno
Não disse nada do modelo
Do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno, meu bem
Que tudo mais vá pro inferno, meu bem

Viva a banda, da, da
Carmen Miranda, da, da, da da, da da da

Caetano Veloso e Gilberto Gil

domingo, 30 de janeiro de 2011

Teatro

 Teatro

 A Semana de Arte Moderna realizada em São Paulo em 1922 seja considerada um marco na renovação artística brasileira, só muito tardiamente os seus efeitos se fizeram sentir no panorama geral do teatro brasileiro.
 Até as décadas de 20 e 30 predominavam ainda, com poucas exceções, as comédias de costumes e as peças sentimentais. Na década de 40, no entanto, em vista das agitações provocadas pela Segunda Guerra Mundial, vêm ao Brasil Louis Jouvet e Ziembinski, homens de teatro que nos trouxeram sua valiosa experiência. Ziembinski, principalmente, foi uma figura que se destacou, participou do grupo Os Comediantes que, em 1943, encenou a peça de Nelson Rodrigues Vestido de noiva, uma das obras que marcaram a renovação de nosso teatro.
 Outros grupos de renovação teatral surgiram até que em 1948 fundou-se o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), que, além de diretores como Ruggero Jacobbi e o próprio Ziembinski, contava, no seu elenco, com os atores: Cacilda Becker, Cleyde Yáconis, Tônia Carrero, Nydia Lícia, Maria Della Costa, Paulo Autran, Sérgio Cardoso, Walmor Chagas, Jardel Filho, Juca de Oliveira e outros. Mais tarde esse grupo desfez por problemas econômicos e vários atores formaram suas próprias companhias.
 Apesar da importância do TBC, predominava ainda a encenação de autores estrangeiros e, em 1953, com a fundação do Teatro de Arena, com José Renato à frente, junto com Augusto Boas, houve a tentativa de se criar um estilo brasileiro para um teatro que apresentasse peças referentes à nossa realidade.
 Algumas obras importantes de nossa dramaturgia foram então encenadas pelo novo grupo, como Eles não usam black-tie (de Gianfrancesco Guarnieri); Chapetuba futebol clube (de Oduvaldo Vianna Filho); Revolução na América do Sul (de Augusto Boal) e outras. Na ausência de obras nacionais que abordassem a nossa realidade social de maneira crítica, eram encenadas peças estrangeiras que tivessem de certa forma, uma relação com a situação brasileira. Houve, por exemplo, a montagem de O tartufo (Molière); A mandrágora (Maquiavel), além da inflência de Brecht na encenação, na década de 60, de Arena conta Zumbi  e Arena conta Tiradentes.
 Paralelamente, e com preocupações afins, formava-se, no Rio de Janeiro, o Grupo Opinião, que contava com Denoy de Oliveira, Ferreira Gullar, Oduvaldo Vianna Filho e outros.

 Principais autores:

 Nelson Rodrigues

 Um dos principais renovadores do teatro brasileiro. Em suas obras, rompeu com os limites da consciência mergulhando no subconsciente, além de abordar também problemas sociais. Suas peças mais importantes são: Vestido de noiva; Álbum de família; Senhora dos afogados; A falecida; Boca de ouro; Beijo no asfalto; Toda nudez será castigada.

 Jorge Andrade

 Sua obra apresenta uma reconstrução crítica de fases importantes da nossa história, sobretudo do ciclo do café, além de focalizar o problema da decadência dos valores patriarcais numa sociedade em transformação. Essas peças estão reunidas no volume Marta, a árvore e o relógio.

 Ariano Suassuna

 Trouxe para o teatro brasileiro moderno a tradição do auto com elementos do folclore nordestino. Destacam-se, na sua produção as peças: O auto da compadecida; O santo e a porca; A pena e a lei.

 Plínio Marcos

 Marcou presença em nosso teatro pela violência de sua temática e pela linguagem franca e direta, que desnuda de maneira bem crítica os problemas da classe média brasileira e dos marginalizados pelo sistema social. Principais obras: Dois perdidos numa noite suja; Navalha na carne; Quando as máquinas param.

 Gianfrancesco Guarnieri

 Em suas peças revela-se uma constante preocupação com os problemas de nossa realidade social e política. Merecem destaque, na sua produção, as seguintes peças: Eles não usam black tie; Gimba; A semente; Arena conta Zumbi; (as duas últimas em parceria com Augusto Boal); Castro Alves pede passagem; Botequim; Um grito parado no ar; Ponto de partida.

 Muitos outros autores podem ser citados, como Dias Gomes, Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes, Chico Buarque, Leilah Assunção, Consuelo de Castro, Antônio Bivar, José Vicente, entre outros.

 Eles não usam black-tie

 Esta peça de Gianfrancesco Guarnieri foi encenada em 1958 e constitui um bom exemplo de realismo crítico do autor na abordagem de problemas sociais.
 A ação transcorre numa favela (anos 50) e focaliza o choque de posições entre pai e filho - Otávio e Tião - a respeito de uma greve por aumento de salário que estoura na fábrica em que trabalham. Otávio (o pai) acredita que só a união de todos os operários pode levar a uma melhoria nas condições de trabalho, fazendo-os sair da miséria em que vivem, enquanto Tião, por ter sido criado pelos padrinhos na cidade, não quer para si o futuro comum das pessoas do morro. Dizendo ter medo de perder o emprego, porque estava para casar com Maria, ele fura a greve, desapontando o pessoal da favela, inclusive sua noiva.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Crônica

 A Crônica
 A crônica, que surgiu em nossa literatura no século XIX, firmou-se no Modernismo, atraindo um grande número de escritores que a ela se dedicaram de maneira contínua ou esporádica. Ainda que seja difícil determinar com exatidão todas as característica da crônica, pode-se dizer que, atualmente, ela representa o registro do quotidiano no que ele possa apresentar de pitoresco ou interessante. No entanto, o fato em si atrai menos do que aquilo que dele possa extrair o cronista, seja uma observação humorística, um momento lírico, uma reflexão filosófica ou um comentário de crítica social.
 Hoje em dia, a crônica é um dos gêneros mais apreciados pelo público leitor e tem lugar reservado nos principais jornais e revistas do país.
 Dentre os inúmeros escritores podemos citar: Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Luís Martins, Lourenço Diaféria, Clarice Lispector, Vinícius de Moraes, Rachel de Queiroz, Luís Fernando Veríssimo, Carlos Eduardo Novaes, Sérgio Porto(Stanislaw Ponte Preta), Manuel Bandeira, Dinah Silveira de Queiroz entre outros.

Ator Cláudio Marzo interpretou "O homem nu" no cinema.
 Enredo de "O homem nu" (Fernando Sabino)


 Um homem tinha que pagar a prestação de sua televisão. Quando acorda, ele fala para sua esposa não abrir a porta para ninguém durante o dia. Pede também para que se a campainha fosse tocada, ela deveria ficar em silêncio, pois estavam se escondendo de um cobrador.
 Quando vai tomar banho, já totalmente nu, percebe que a sua esposa estava tomando banho. Então ele decide preparar o café da manhã. Quando vai pegar o pão, que estava fora do seu apartamento, ele olha atentamente para os dois lados, dá dois longos passos e agarra o pão. Nesse momento, é surpreendido por uma rajada de vento, a porta bate e se tranca e ele fica sozinho, nu no corredor somente com o pão nas mãos para esconder sua nudez.
 O pavor leva-o a se esconder na escada, quando ouve passos de alguém subindo, vai para o elevador, que é chamado e leva-o para outro andar.
 Este conto deu origem ao filme do mesmo nome, tudo escrito com humor, Fernando Sabino descreveu o lado pitoresco do quotidiano, com várias situações de uma maneira direta. Principais características da crônica O homem nu:


  • Simplicidade
  • Objetividade
  • Observação da vida e hábito das pessoas
  • Nudez do homem urbano do século XX  =  reflexão sobre a condição humana e elementos repressores da cultura. A personagem central do conto é avaliado a partir da ausência de roupas (Crítica ao moralismo rígido da sociedade).
Fernando Sabino
 Rubem Braga

 Foi um dos melhores cronistas da literatura brasileira, e as características principais de suas obras são:
  • Flagrante do quotidiano
  • Linguagem poética e sensível
  • Observar os outros
  • O narrador por vezes se apresenta em 1º pessoa, mas não é o centro da narrativa
  • Busca do lado humano "na selva de pedra" em que vivemos

Rubem Braga
 A outra noite

 Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite, uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui. Quando vinha para casa de táxi, encontrei um amigo e o trouxe até Copacabana; e contei a ele que lá em cima, além das nuvens, estava um luar lindo, de Lua cheia; e que as nuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas, uma paisagem irreal.
 Depois que o meu amigo desceu do carro, o chofer aproveitou um sinal fechado para voltar-se para mim:
 - O senhor vai desculpar, eu estava aqui a ouvir sua conversa. Mas, tem mesmo luar lá em cima?
 Confirmei: sim, acima da nossa noite preta e enlamaçada e torpe havia uma outra - pura, perfeita e linda.
 - Mas, que coisa...
 Ele chegou a pôr a cabeça fora do carro para olhar o céu fechado de chuva. Depois continuou guiando mais lentamente. Não sei se sonhava em ser aviador ou pensava em outra coisa.
 - Ora, sim senhor...
 E, quando saltei e paguei a corrida, ele me disse um "boa noite" e um "muito obrigado ao senhor" tão sinceros, tão veementes, como se eu lhe tivesse feito um presente de rei.
                                                                  
                                                  (Ai de Ti, Copacabana. RJ,1960.p.183-84)